Complexidade e
auto-ética
Izabel Cristina Petraglia*
Pedagoga e
Psicóloga. Doutora em Educação pela USP. Professora do Mestrado em Educação da
UNINOVE. Coordenadora do NIIC – Núcleo Interinstitucional de Investigação da
Complexidade, em São Paulo. Autora dos livros: Interdisciplinaridade: O cultivo do professor – Ed. Pioneira; Edgar Morin: A educação e a complexidade do
ser e do saber – Ed. Vozes e Olhar
sobre o olhar que olha: Complexidade, Holística e Educação – Ed. Vozes.
Resumo: Este texto procura refletir sobre a epistemologia da complexidade,
como compreendida por Edgar Morin, a partir de idéias que se relacionam entre
si, de maneira interdependente e complementar. A complexidade associa conceitos
de ordem, desordem e organização, incorpora o princípio da incerteza e aborda
as noções de sujeito e homo
sapiens-demens em sua relação com a auto-ética.
Palavras-chave: incerteza,
organização, sujeito, pensamento, amor
“Eis o momento! Começando nesta porta, um
longo e eterno caminho mergulha no passado: atrás de nós está uma eternidade!
Não será verdade que todos os que podem andar têm de já ter percorrido este
caminho?
F. Nietzsche
“e o fim de nossa viagem será chegar ao
lugar de onde partimos. E conhecê-lo então pela primeira vez”.
T.S. Eliot
O termo
latino complexus significa “o que é
tecido junto”. É o cerne da epistemologia da complexidade, proposta pelo
pensador contemporâneo francês Edgar Morin. Com uma vasta bibliografia,
traduzida para diversas línguas ocidentais e orientais, Morin se denomina “um
contrabandista dos saberes”. Teve sua formação nas ciências humanas, sofreu
influência do marxismo e dedicou-se ao estudo de temas como política,
sociologia, filosofia e cinema. Sempre se pronunciou contra qualquer espécie de
injustiça, segregação e ditadura. Combatente voluntário da Resistência
Francesa, de 1942 a 1944, foi expulso do Partido Comunista em 1951 ao criticar
o dogmatismo stalinista.
Pensador
crítico, reflexivo e muito produtivo, dedica-se ao estudo da complexidade, termo
que apropriou da cibernética e incorporou à sua obra desde a década de 1960. Em
suas reflexões sobre ciência e filosofia, Morin contrapõe-se ao pensamento
reducionista, linear e simplificador. Destaca as relações e dependências
multidimensionais de todos os saberes, tais como a biologia, a antropologia, a
sociologia e a física, e ainda coloca o pensamento mítico-simbólico-mágico ao
lado do racional-lógico-científico.
Morin
entende a complexidade como um tipo de pensamento que não separa, mas une e
busca as relações necessárias e interdependentes de todos os aspectos da vida
humana. Trata-se de um pensamento que integra os diferentes modos de pensar,
opondo-se aos mecanismos reducionistas, simplificadores e disjuntivos. Esse
pensamento considera todas as influências recebidas, internas e externas, e
ainda enfrenta a incerteza e a contradição, sem deixar de conviver com a
solidariedade dos fenômenos existentes. Enfatiza o problema e não a questão que
tem uma solução linear. Como o homem, um ser complexo, o pensamento também
assim se apresenta. Entende Morin (1980, p. 14):
“É a viagem em busca de um modo de pensamento capaz de respeitar a multidimensionalidade, a riqueza, o mistério do real; e de saber que as determinações – cerebral, cultural, social, histórica – que impõem a todo o pensamento, co-determinam sempre o objecto de conhecimento. É isto que eu designo por pensamento complexo”
Trata-se de um pensamento desprovido de certezas e verdades científicas, que considera a diversidade e a incompatibilidade de idéias, crenças e percepções, integrando-as à sua complementaridade. “A consciência nunca tem a certeza de transpor a ambigüidade e a incerteza” (Morin, 1973, p.134). Morin refere-se ao princípio da incerteza tal como formulado por Werner Heisenberg, físico quântico e um dos precursores da mecânica quântica. Esse princípio baseia-se na falibilidade lógica, no surgimento da contradição presente na realidade física e na indeterminabilidade da verdade científica.
A base da epistemologia da complexidade advém de três teorias surgidas na década de 1940: a teoria da informação, a cibernética e a teoria dos sistemas, cujos impactos e aplicações práticas, no entanto, só se manifestariam mais tarde, nas décadas de 1960, 1970 e 1980.
A teoria da informação se ocupa essencialmente de analisar problemas relativos à transmissão de sinais no processo comunicacional. A cibernética é a ciência que estuda as comunicações e o sistema de controle dos organismos vivos e máquinas em geral. Compreende a idéia de retroação, que substitui a causalidade linear pela curva causal. Trata-se de uma teoria das máquinas autônomas, em que a causa atua sobre o efeito, que por sua vez age sobre a causa. E a teoria dos sistemas afirma que “o todo é mais que a soma das partes”, indicando a existência de qualidades emergentes que surgem da organização do todo e que podem retroagir sobre as partes; mas “o todo é também menos que a soma das partes”, pois as partes têm qualidades que são inibidas pela organização global. No conceito de sistema, como compreendido por Morin, está presente a idéia de rede relacional: os objetos dão lugar aos sistemas e as unidades simples dão lugar às unidades complexas, levando em consideração fenômenos como tempo e espaço.
A complexidade do pensamento leva-nos ao paradoxo do
uno e do múltiplo e à convivência com a ambivalência. Cabe ao homem, por meio
do conhecimento, interpretar os aspectos ambíguos da realidade, sem
desconsiderar sua multidimensionalidade: unidades complexas são multidimensionais.
Somos seres triplos ou trinitários, considerando a inseparabilidade das três naturezas humanas: somos indivíduos, pertencemos à espécie homo sapiens e somos seres sociais. Todos esses termos e cada um, individualmente, são ao mesmo tempo meio e fim.
Como afirma Morin (2000, p. 55):
“A
complexidade humana não poderia ser compreendida dissociada dos elementos que a
constituem: todo desenvolvimento
verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais,
das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana”.
A complexidade incorpora as noções de ordem, desordem e organização, presentes em todos os sistemas. Ordem-desordem é uma relação inseparável que tende a estabelecer a organização. É um processo fundamental para a evolução do universo e é norteador da relação dialógica e ao mesmo tempo una, complementar, concorrente e antagônica:
“Una (isto é, indistinta na
sua origem genésica e no seu caos formador);
Complementar: tudo o que é físico, dos
átomos aos astros, das bactérias aos seres humanos, precisa da desordem para
organizar-se; tudo o que é organizado ou
organizador trabalha, nas e pelas suas transformações, também para a desordem (
aumento de entropia);
Concorrente: sob outro ponto
de vista, a desordem, por um lado, e a ordem/organização, por outro, são dois
processos concorrentes, isto é, que correm ao mesmo tempo, o da dispersão
generalizada e o do desenvolvimento em arquipélago da organização;
Antagónica: a desordem
destrói a ordem organizacional (desorganização, desintegração, dispersão, morte
dos seres vivos, equilíbrio térmico) e a organização recalca, dissipa e anula
as desordens”. (Morin, 1977, p. 80)
A complexidade pauta-se por três princípios que se inter-relacionam: o dialógico, o recorrente e o hologramático.
O princípio dialógico consiste em manter a unidade de noções antagônicas, ou seja, unir o que aparentemente deveria estar separado, o que é indissociável, com o objetivo de criar processos organizadores e, portanto, complexos.
O princípio recorrente é o que nega a determinação linear que promove a criação de novos sistemas e pode ser entendido como processos em circuitos, de modo que os efeitos retroagem sobre as causas desencadeadoras. É mais que um circuito e que uma retroação reguladora, presentes na cibernética. É um processo organizador necessário e múltiplo que envolve tanto a percepção como o pensamento.
O princípio hologramático apresenta o paradoxo dos sistemas em que a parte está no todo assim como o todo está na parte. É a totalidade do patrimônio genético que está presente em cada célula. Concebe a imagem física do holograma, que concentra em si todos os pontos e é projetada no espaço em três dimensões. Sua projeção remete-nos à imagem do objeto hologramático com sensações de relevo e de cor. O rompimento de uma imagem hologramática não apresenta imagens mutiladas ou fragmentadas, mas imagens completas multiplicadas.
Morin
(1982, p. 141) cria o termo unitas
multiplex, em que integra termos antagonistas para elucidar a noção de
complexidade:
“Ao
mesmo tempo, devemos considerar o sistema não só como uma unidade global (o que
equivale pura e simplesmente a substituir a unidade elementar simples do
reducionismo por uma macrounidade simples) mas como unitas multiplex: também aqui estão necessariamente associados
termos antagonistas. O todo é efectivamente uma macrounidade, mas as partes não
estão fundidas ou confundidas nele: têm uma dupla identidade, uma identidade
própria que permanece (portanto, não redutível ao todo) e uma identidade comum,
a da sua cidadania sistémica.”
A
complexidade surgiu para questionar a fragmentação e o esfacelamento do
conhecimento, em que o pensamento linear, oriundo do século XIX, colocava o
desenvolvimento da especialização como supremacia da ciência, contrapondo-se ao
saber generalista e globalizante. A complexidade parte da noção de totalidade e incorpora a solidariedade,
colocando, lado a lado, razão e subjetividade humana.
A solidariedade,
presente na complexidade, coloca-se na educação através da
transdisciplinaridade, considerando aspectos como princípio da incerteza,
perspectiva dialética e dialógica e dimensão espiritual do humano. Para atingir
a transdisciplinaridade, é necessário o rompimento com idéias preconcebidas ou
reducionistas.
A
complexidade propõe uma educação emancipadora porque favorece a reflexão do
cotidiano, o questionamento e a transformação social, ao passo que concepções
reducionistas, revestidas de pensamentos lineares e fragmentados, valorizam o
consenso de uma pedagogia que, visando a harmonia e a unidade, acaba por
estimular a domesticação e a acomodação.
Em suas considerações sobre a dialógica, Morin explica o significado da expressão que cunhou, “a vida vive de contradições”. Entende que para compreender a vida em todas as suas possibilidades e limitações precisamos justapor conceitos contraditórios, de modo dialógico. Essa visão compreende a complexidade do real, remetendo-nos a um pensamento que aceite as ambivalências, o uso de contradições e as incertezas em todas as dimensões.
Afirma Morin (1973, p.
145):
“(...)
para compreendermos o homem, devemos unir as noções contraditórias do nosso
entendimento. Assim, ordem e desordem são antagonistas e complementares, na
auto-organização e no devir antropológicos. Verdade e erro são antagonistas e
complementares na errância humana.
Precisamos
de ligar o homem razoável (sapiens) ao homem louco (demens), ao homem produtor,
ao homem técnico, ao homem construtor, ao homem ansioso, ao homem gozador, ao
homem extático, ao homem cantante e dançante, ao homem instável, ao homem
subjectivo, ao homem imaginário, ao homem mitológico, ao homem crísico, ao
homem neurótico, ao homem erótico, ao homem úbrico, ao homem destruidor, ao
homem consciente, ao homem inconsciente, ao homem mágico, ao homem racional,
numa cara com muitas faces, em que o hominídio se transforme definitivamente em
homem.
Todos
estes traços se dispersam, se compõem, se recompõem, consoante os indivíduos,
as sociedades, os momentos, aumentando a incrível diversidade da humanidade...
Isto
corresponde bem ao que Marx entendia pela noção de homem genérico, e que se
confunde aqui, para nós, com a noção de natureza humana.”
O ser
humano traz em si um conjunto de características antagônicas e bipolares. Ao
mesmo tempo em que é sábio é louco; é prosaico e é poético; é trabalhador e
lúdico; é simultaneamente empírico e imaginário, e assim por diante. Vive de
muitos jeitos e se apresenta de várias perspectivas. É unidade e dualidade; é
multiplicidade, pluralidade, antagonismo, complementaridade e
indissociabilidade; é corpo, mente, idéias, espírito, magia, afetividade... É
um homo complexus:
“O ser humano é um ser racional e irracional, capaz de medida e desmedida; sujeito de afetividade intensa e instável. Sorri, ri, chora, mas sabe também conhecer com objetividade; é sério e calculista, mas também ansioso, angustiado, gozador, ébrio, extático; é um ser de violência e de ternura, de amor e de ódio; é um ser invadido pelo imaginário e pode reconhecer o real, que é consciente da morte, mas que não pode crer nela; que secreta o mito e a magia, mas também a ciência e a filosofia; que é possuído pelos deuses e pelas Idéias, mas que duvida dos deuses e critica as Idéias; nutre-se dos conhecimentos comprovados, mas também de ilusões e de quimeras. E quando, na ruptura de controles racionais, culturais, materiais, há confusão entre o objetivo e o subjetivo, entre o real e o imaginário, quando há hegemonia de ilusões, excesso desencadeado, então o Homo demens submete o Homo sapiens e subordina a inteligência racional a serviço de seus monstros”. (Morin, 2000, p. 59-60)
A
consciência do homo sapiens não é a
que elimina a incerteza e anuncia a verdade; ao contrário, é a que mantêm clara
a existência da incerteza, do erro e da ilusão, intrínsecos ao mundo e à
condição humana. É uma forma de ter garantido segurança, felicidade e
purificação, capaz de se contrapor à insegurança, ao medo e à morte, o que foi
institucionalizado pela cultura, como as religiões, a magia, os ritos e os
mitos.
A complexidade, que aceita a incerteza da ciência, a insuperabilidade de contradições, acolhe o pensamento mítico, que compreende o misticismo, as religiões, a magia e a dimensão espiritual do ser humano como expressão cultural presente, de modos diferentes, nas diversas sociedades. Morin compreende a dimensão espiritual como uma defesa do ser humano contra a morte, que o apavora, e não como busca de perfeição para atingir, como prêmio, a vida eterna.
O sujeito, na visão moriniana de complexidade, é aquele capaz de se auto-organizar e de estabelecer relações com o outro, transformando-se continuamente. É nessa relação de alteridade que ele encontra a autotranscendência, superando-se, interferindo e modificando o seu meio numa auto-eco-organização a partir de sua dimensão ética, que não é imposta cultural ou universalmente a cada indivíduo, mas reflete as suas escolhas, percepções, valores e ideais. Trata-se da prática da auto-ética, que inclui uma ética política e pressupõe a observação de prioridades que Morin chamou de “idéias-guia”. Ele entende que a ética não se reduz ao aspecto político, do mesmo modo que este não se reduz à ética; no entanto, a dialógica que compreende a indissociabilidade e o antagonismo intrínsecos aos dois termos poderá estar a serviço da humanidade. Para Morin (1998a), as idéias-guia prioritárias são:
1- Ética da religação, que inclui o que associa, une e solidariza, opondo-se ao que disjunta, reduz e fragmenta;
2- Ética do debate, que pressupõe a argumentação e a polêmica, mas rejeita os meios ilícitos, os insultos e os julgamentos de autoridade;
3- Ética da compreensão, que permite o conhecimento do sujeito como tal, fraterniza as relações e procura reumanizar o conhecimento político;
4- Ética da magnanimidade, que se contrapõe à vingança, à punição, à barbárie e à qualquer forma de preconceito, promovendo a clemência e a generosidade;
5- Incitação às boas vontades para a salvação dos seres humanos e do Planeta, incluindo o apelo a todos os sujeitos, sejam eles sapiens ou demens;
6- Ética da resistência, necessária e fundamental aos tempos de barbárie, como arma para se chegar ao futuro.
A ética, no entanto, só faz sentido na sua aplicação prática. Nossas atitudes devem ser amorosas, o que implica cuidado que temos com a vida em suas diversas dimensões: com nosso corpo e nosso espírito, com o planeta e com o outro.
Exercemos nossa cidadania quando agimos e participamos das tomadas de decisão, quando somos efetivamente políticos e democráticos, quando tomamos partido e nos posicionamos crítica e criativamente no espaço que ocupamos, quando escolhemos – e ao escolher, amamos.
Ao escrever e refletir sobre essas idéias, nos vem a percepção do outro e o quanto sua presença e existência ao nosso lado, compartilhada, nos importa. Será mesmo uma presença compartilhada? Há solidariedade em nossas ações? Se não podemos ver o outro como um diferente de nós, e por isso, ou apesar disso, respeitá-lo como sujeito e cidadão terrestre, não estaremos pensando nem sentindo de maneira complexa.
Uma ética revestida de complexidade é aquela capaz de ver e compreender o outro como um ser amado em sua dimensão humana, que pressupõem o entender e o sentir, o prosaico e o poético, as idéias e os sentimentos. É impossível fazermos o que não pensamos e o que não sentimos! O ser humano é um sujeito relacional, vive em comunidade e é dependente; por isso, aceitar o outro e compreendê-lo de forma amorosa é uma condição ontológica, essencial para a sua existência.
Mais uma vez recorremos a Morin, que ressalta a importância do amor para a vida (1998b, p.67):
“Mas isso não é o suficiente. Se o mal que sofremos e fazemos sofrer
reside na incompreensão do outro, na autojustificação, na mentira a si próprio
(self
deception), então o caminho da ética – e
é aí que introduzirei a sabedoria – reside no esforço da compreensão e não da
condenação, no auto-exame que comporta a autocrítica e que se esforça em
reconhecer a mentira para si próprio”.
Morin,
Edgar. 1973. O paradigma perdido: a
natureza humana. 4. ed. Portugal, Publicações Europa-América.
____. 1977. O método
I – A natureza da natureza. 2. ed. Portugal, Publicações Europa-América.
____. 1980. O método
II – A vida da vida. 2. ed. Publicações Europa-América.
____. 1982. Ciência
com consciência. Portugal, Publicações Europa-América.
____.
1998a. A ética do sujeito
responsável. In: Carvalho, E. de
A., Almeida, M. da C. de, Coelho, N. N., Fiedler-Ferrara, N. & Morin,
E. Ética, solidariedade e complexidade.
São Paulo, Palas Athena.
____. 1998b. Amor,
poesia, sabedoria. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.
____. 2000. Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro. São
Paulo/Brasíla, Cortez/Unesco.