Edgar Morin: Complexidade, transdisciplinaridade e incerteza

Izabel Petraglia

 

“(...) Vi todas as coisas e
 maravilhei-me de tudo,

Mas tudo ou sobrou ou foi
 pouco, não sei qual, e eu sofri.

 Eu vivi todas as emoções, todos os
 pensamentos, todos os gestos.
 E fiquei tão triste como se tivesse querido
 vivê-los e não conseguisse (...)”

                                                  Álvaro de Campos

Mais que filósofo, sociólogo, epistemólogo, Edgar Morin é um pensador contemporâneo transdisciplinar. Intitula-se “um contrabandista dos saberes” por transitar nas diversas áreas promovendo o diálogo entre as ciências e a busca das relações entre todos os tipos de pensamento. É diretor emérito de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS); fundador do Centro de Estudos Transdisciplinares, Sociologia, Antropologia e História (CETSAH) da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS) de Paris e presidente da Associação pelo Pensamento Complexo (APC). Escreveu mais de meia centena de livros e artigos.

De origem judaica, filho de sefarditas – judeus expulsos da Espanha no final do século XV - Morin nasceu na França, no verão parisiense, em 08 de julho de 1921. Ao descrever-se, em Meus Demônios (1997, p. 13-16), conta de sua aprendizagem da vida e de suas experiências amorosas com o conhecimento e consigo mesmo. Diz ter aprendido da família “... o Mediterrâneo, o gosto pelo azeite, pela berinjela, pelo arroz com feijão-branco, pelas almôndegas de cordeiro aromatizadas, pelos salmonetes, pelos folhados de queijo ou de espinafre”. Da escola, aprendeu a França: tornou-se filho da pátria e absorveu sua história. E o que aprendera por si mesmo? O resto...

Antes de completar dez anos de idade, perde sua mãe, que fora acometida de uma lesão cardíaca e, desde cedo começa a entender o significado da contradição vida e morte, alegria e tristeza, esperança e desesperança. Essa dialógica será uma fonte de reflexão e, mais tarde, constituirá uma das bases antropológicas de seu pensamento complexo.

Marxista de formação, Morin foi combatente voluntário da Resistência Francesa, de 1942 a 1944. Militante ativo do Partido Comunista, do qual foi expulso, em 1951, por suas críticas e divergências ao dogmatismo stalinista. Colocou-se sempre contra qualquer forma de ditadura, seja de esquerda ou de direita, manifestando-se contra o preconceito e a exclusão de toda ordem.

Em seus escritos e palestras, costumeiramente, manifesta-se acerca da importância do amor ao longo de sua vida. É no amor que busca e, invariavelmente, encontra a energia necessária para a continuidade de sua vasta produção intelectual.

 

“Não sou daqueles que têm uma carreira, mas dos que têm uma vida (...) Passei ao largo dos amores, ainda que não tenha podido viver sem amor: diria até que, sem alta combustão amorosa, eu não teria jamais tido coragem de escrever La Méthode”. (MORIN, 1997, p. 9)

 

Autor da epistemologia da Complexidade - termo oriundo da Cibernética, que incorpora à sua obra a partir da década de 60 – integra os diversos modos de pensar, opondo-se ao pensamento linear, reducionista e disjuntivo. Propõe um pensamento que une e não separa todos os aspectos presentes no universo. Considera a incerteza e as contradições como parte da vida e da condição humana e, ao mesmo tempo, sugere a solidariedade e a ética como caminho para a religação dos seres e dos saberes.

Entende o ser humano como um ser complexo, capaz de se auto-organizar e de estabelecer relações com o outro, e é nessa relação de alteridade que o sujeito encontra a autotranscendência, superando-se, interferindo e modificando o seu meio num processo de auto-eco-organização a partir de sua dimensão ética que reflete seus valores, escolhas e percepções do mundo.

No ano passado, a França e muitos outros “contrabandistas dos saberes”, leitores, amigos de Edgar Morin e participantes da Rede Mundial de Complexidade comemoraram seu 80º aniversário, na sede da UNESCO, em Paris. Oitenta anos de produtividade, de criação e de contribuição “para o amor, para a poesia e para a sabedoria”. É como a abelha fazendo mel! Ele mesmo afirma para si:

 

“... eu era movido por aquilo que o tao chama de espírito do vale, “que recebe todas as águas que afluem a ele”. Mas não me vejo como um vale majestoso; vejo-me, antes, como uma abelha que se inebriou de tanto colher o mel de mil flores, para fazer dos diversos polens um único mel”. (MORIN, 1997, p.41)

 

 

COMPLEXIDADE: Tudo está ligado a tudo.

 

Início de século e milênio nos impõe a urgência de pensarmos novas alternativas diante do mundo, das relações e, portanto, das organizações. Dependemos de pensamentos e ações que determinam nossa cultura e, ao mesmo tempo, são determinados por ela. As sociedades, em sua diversidade múltipla, ditam regras e normas que são aceitas e incorporadas moralmente pelas comunidades, no intuito, cada vez mais freqüente, de adequar e unificar procedimentos e critérios, que não apenas distinguem os povos, mas, sobretudo, aproximam os indivíduos membros de um grupo.

A vida contemporânea nos coloca a possibilidade da reflexão sobre a necessidade de se adotar novas posturas e comportamentos que são influenciados pelo modo de pensar; dito de outra forma, os pensamentos determinam as práticas que se estabelecem e se desenvolvem nas sociedades. Cada vez mais, a urgência e as mudanças céleres nas diversas áreas do saber nos indicam que a aprendizagem dos indivíduos está em toda parte e em todos os tempos.

Já compreendemos que é necessário mudar, criar novas alternativas e desenvolver critérios e procedimentos éticos diversificados, para sobrevivermos à barbárie. É preciso resistir e manter viva a esperança de transformação, num mundo cada vez mais excludente e violento. Aprendemos com Edgar Morin que “A resistência é o outro lado da esperança”. (MORIN, 1997, p. 62).

O indivíduo está na sociedade que está no indivíduo. A pessoa faz parte de uma comunidade, e esta faz parte da pessoa com suas normas, linguagem e cultura que, ao mesmo tempo, é produto dessa sociedade e produtora de sua manutenção e do status quo. Este é um princípio da epistemologia da complexidade que entende, que a parte está no todo assim como o todo está na parte. Cada parte, por um lado, conserva suas qualidades próprias e individuais, mas, por outro, contém a totalidade do real.

 Da mesma forma, a complexidade indica que tudo se liga a tudo e, reciprocamente, numa rede relacional e interdependente. Nada está isolado no Cosmos, mas sempre em relação a algo. Ao mesmo tempo em que o indivíduo é autônomo, é dependente, numa circularidade que o singulariza e distingue simultaneamente. Como o termo latino indica: “Complexus – o que é tecido junto” (MORIN, 1997, p. 44).

 Essa reflexão nos remete a outras duas idéias, igualmente importantes e necessárias para a compreensão da complexidade humana. Trata-se de o ser humano não ser somente um ser biológico ou um ser cultural. Sua natureza é multidimensional; ele é trinitário. Faz parte da espécie do homo sapiens, é membro de uma sociedade e é um indivíduo. E a outra idéia, é a que Morin nos alerta de que “(...) há algo mais do que a singularidade ou que a diferença de indivíduo para indivíduo, é o facto que cada indivíduo é um sujeito”. (MORIN, 1991, p. 78)

 

 

HOMO COMPLEXUS

 

O pensamento complexo é antagônico e complementar; é contraditório e ambivalente, mas constantemente está em transmutação. Assim também é a educação e a aprendizagem. Aprendizagem é a mudança consciente de atitude e de comportamento. Só o humano é capaz de se educar e aprender.

O ser humano traz em si um conjunto de características antagônicas e bipolares. Ao mesmo tempo em que é sábio, é louco; é prosaico e é poético; é trabalhador e lúdico; é simultaneamente empírico e imaginário. Vive de muitos jeitos e se apresenta de várias maneiras. É unidade e diversidade; é multiplicidade, pluralidade e indissociabilidade; é corpo, idéias e afetividade. É um homo complexus.

Pensemos nesse sujeito que, complexo, é sapiens e demens na relação consigo, com o outro e com o universo. A partir da ampliação de sua consciência de mundo e da reelaboração do pensamento, a alteridade está presente na escola e na sociedade por meio do seu fazer. A prática se efetiva pela reflexão, num movimento circular de ação, reflexão e ação. Um momento modificando o outro e modificando a si mesmo, simultaneamente. 

O homo complexus é responsável pelo processo de auto-eco-organização que se constrói na partilha e solidariedade de um tipo de pensamento que liberta porque é criativo, artístico, político, educacional e ético. No pensamento complexo, as contradições têm espaço de acolhimento sem preconceito. Opostos, diferentes e complementares que se ligam numa teia multirreferencial que inclui a objetividade e a subjetividade, colocando-as no mesmo patamar de possibilidades constantes.

Uma epistemologia da complexidade incorpora não só aspectos e categorias da ciência, da filosofia e das artes, como também os diversos tipos de pensamento, sejam eles míticos, mágicos, empíricos, racionais, lógicos, numa rede relacional que faz emergir o sujeito no diálogo constante com o objeto do conhecimento. Considera a comunicação entre as diversas áreas do saber e compreende ordem, desordem e organização como fases importantes e necessárias de um processo que culmina no auto-eco-organização de todos os sistemas vivos.

Ainda que o indivíduo apresente semelhanças étnicas e culturais, ele tem também características químicas, sociais e do ecossistema peculiares. É um ser ímpar. Ao construírem sua identidade, que pressupõe liberdade e autonomia, o homem e a mulher tornam-se sujeitos, a partir das dependências que alimentam como, por exemplo, as da família, da escola, da linguagem, da cultura e da sociedade.

 

 

TRANSDISCIPLINARIDADE – Complexidade na educação

 

Somos seres políticos livres, e a liberdade é uma emergência da pessoa que identifica necessidades e desejos, elabora hipóteses e as sistematiza.

É importante refletir sobre as crises da humanidade, a fim de participarmos das decisões sociais e políticas de nosso tempo como cidadãos sociais, culturais e terrestres, resguardando o nosso direito e a nossa possibilidade de intervenção, transformação, emancipação e reconstrução. Incentivar e estimular esse direito de cidadania e esse dever do cidadão é função de toda organização de aprendizagem e de todas as linguagens, quer artísticas, quer míticas, racionais ou empíricas.

 Esse é o papel de uma educação que se pretende complexa, ética e solidária. Uma educação complexa nasce da necessidade de investigar os novos paradigmas diante do questionamento de padrões e modelos reducionistas e fragmentados tão comuns no século XIX. A educação escolar com seu sistema disciplinar e compartimentalizado de áreas, cursos e departamentos não levava em consideração a urgência de uma reforma de pensamento para a emancipação do sujeito.

A escola deve incentivar a comunicação entre as diversas áreas do saber e a busca das relações entre os campos do conhecimento, desmoronando as fronteiras que inibem e reprimem a aprendizagem. Trata-se da transcendência do pensamento linear que, sozinho, é reducionista. Transdisciplinaridade é a prática do que une e não separa o múltiplo e o diverso no processo de construção do conhecimento.

 A transdisciplinaridade pressupõe também a utilização de diversas linguagens. Destacamos aqui as artes – nem sempre tão valorizadas pelos sistemas educacionais - para a facilitação da aprendizagem do aluno.

 

“As artes levam-nos à dimensão estética da existência e – conforme o adágio que diz que a natureza imita a obra de arte – elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente.

Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana.“ (MORIN, 2000ª, p. 45).

 

As artes despertam sensibilidade e afetividade, e essa subjetividade não só aprimorará o desempenho crítico e reflexivo, como também atuará na ampliação de capacidade criativa e lógica da pessoa.

Outra função educativa da arte é a utilização de seus conteúdos – o conteúdo objetivo - a letra de uma música ou uma poesia, por exemplo, e o conteúdo subjetivo – intuição, prazer, sonho, fantasia, alegria - apreendidos na observação atenta e despretensiosa de uma escultura ou de uma pintura.

O cinema (grande paixão de Morin) é outra fonte inesgotável de educação e cultura. Reúne diversos recursos para a aprendizagem – conteúdos objetivos e subjetivos. Muitas vezes é possível aprender mais sobre a condição humana assistindo a um bom filme do que lendo uma apostila. É mais fácil se entender o que é esquizofrenia assistindo ao filme “Uma mente brilhante” (A beautiful mind), de Ron Howard – Oscar de Melhor filme, 2001 - do que debruçado sobre um compêndio de psicopatologia. O que não significa que se deve parar por aí. O aluno deve ser desafiado ao aprofundamento de questões gerais e específicas com a complementação de estudo e dedicação à teoria, mas, depois do filme, é provável que esteja mais estimulado.

E ainda na educação, existe uma questão que é fundamental, no meu ponto de vista “demente”.Trata-se de sua função e objetivos precípuos que deveriam ser repensados pelas autoridades educacionais e pelos cidadãos comuns. Sua tarefa primeira não seria preparar a pessoa para o mercado profissional, atribuindo-lhe um diploma, mas permitir que o aprendiz descubra seus sonhos e os diferentes modos de realizá-los. Trata-se da alegria e do prazer.

A escola não pode desconsiderar que o homo sapiens é também ludens, faber e demens. Ele precisa brincar, aprimorar seu poder criador, seu senso estético e crítico, sua capacidade de introspecção e sua sensibilidade. Só assim pode mais e melhor desenvolver sua auto-ética para a construção de um planeta mais justo, igualitário e solidário para si mesmo e para os outros.

Não basta nascer para ser feliz; o ser humano é responsável pela construção de sua felicidade. E se o poeta diz que a felicidade é feita de momentos, a escola deveria estar ao seu lado promovendo a ampliação desses momentos, cumprindo essa função social e humanitária.

 

 

A Escola e o Respeito à Condição Humana.

 

A construção do conhecimento não precisa ser amarga, sisuda ou chata. Pode e deve ser alegre, leve e prazerosa, pois é o conhecimento o responsável pela libertação e emancipação humana.

No entanto, a escola só se ocupa de preparar a pessoa para o trabalho, furtando-se ao compromisso de ensinar as coisas boas da vida, como escolher bem e criticamente um filme ou um livro, como apreciar uma obra de arte. Não estimula o prazer de escutar uma música, visitar uma exposição, passear por um parque, em contato com a natureza ou caminhar na praia. A escola não prepara para o ócio.

O primeiro a manifestar-se a favor do ócio como direito dos operários e a única forma de equilíbrio existencial foi o estudante de medicina, artista e político revolucionário cubano, membro ativo da Internacional Socialista na França e Espanha, Paul Lafargue, em 1880. Em seu artigo “O Direito ao Ócio”, publicado no jornal L’Égalité, ele já identificava, na tecnologia, o instrumento de salvação do trabalhador, capaz de livrá-lo da fadiga, e atribuía ao ócio o poder de acabar com as angústias humanas.

Pouco mais de meio século depois, em 1935, o filósofo, matemático e escritor, Bertrand Russell, publicou “O Elogio ao Ócio”, em que afirmava que o ócio é um produto da civilização e da educação, tendo em vista que o tempo vago e sem trabalho sempre fora desconsiderado e que os esforços dos processos educacionais sempre se voltaram para o trabalho.

O sociólogo italiano, Domenico De Masi, autor de “O ócio criativo” (2000), desenvolveu a tese sobre a importância de  aprender a viver o ócio. Entende que o tempo livre pode converter-se em violência, em doenças e em preguiça, mas pode transformar-se também em criatividade, arte e liberdade. Para De Masi, o ócio é responsável pelo desenvolvimento e gestação de boas idéias para o indivíduo ser mais feliz e bem sucedido.

Considera ainda que a escola só prepara para o trabalho; no entanto, o tempo que o ser humano destina para este fim é muito menor do que gasta com as outras atividades da vida, incluindo o lazer, e é aí que devemos concentrar nossas potencialidades. Propõe, então, um modelo embasado na comunicação simultânea entre trabalho, estudo e lazer, em que as pessoas aprendem a privilegiar suas necessidades humanas, portanto, complexas, de amar, brincar, conviver, refletir, conversar.

E é por essas razões que se justifica esse momento, que se propõe a refletir sobre Epistemologia e Filosofia em suas múltiplas perspectivas de complexidade e suscitar o diálogo com e na diversidade.

Contribui também para esse diálogo, Edgar Morin, em seu livro “Complexidade e Transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental” (1999), quando afirma que a necessária reforma da universidade é decorrente da reforma do pensamento. Esta precede aquela e compreende o contexto e o complexo numa rede relacional. A reforma institucional surge da problematização que ocorre no seu interior e considera a inseparabilidade do múltiplo e do diverso para a ampliação do nível de consciência do real.

A reforma do pensamento que assegura a mudança de comportamento e a abertura para as novas idéias incorpora uma necessidade social irrefutável: formar cidadãos aptos a enfrentarem os problemas de seu tempo.

Morin coloca a universidade como instituição ao mesmo tempo conservadora, regeneradora e geradora. É conservadora porque integra, memoriza e ritualiza saberes, idéias e valores culturais; regenera, pois rediscute e atualiza saberes e os transmite às novas gerações; é geradora porque cria, elabora e processa os novos saberes que serão herdados sucessivamente.

Desse modo, o ensino superior deixa de ser tão-somente formador de profissionais e técnicos para facilitar ao sujeito revisitar seu destino como cidadão sensível. “(...) Não se trata apenas de modernizar a cultura, mas de culturalizar a modernidade”. (MORIN, 1999, p. 10).

Ao refletir sobre o papel da escola, aponta ainda para uma necessidade histórica igualmente importante, que é o desenvolvimento de uma democracia cognitiva organizada a partir do ressurgimento do ser humano, da natureza, do cosmos e da própria realidade. É uma democracia cognitiva que compreende a ampliação do acesso aos saberes das múltiplas áreas, assim como compreende a diversidade e o pluralismo teórico e sem preconceitos, sem o determinismo da certeza que, na complexidade, é entendida como relativa, efêmera e ilusória.

 

 

A auto-ética em tempos de Incerteza.

 

      O pensamento complexo compreende o princípio da incerteza tal como formulado por Werner Heisenberg, físico quântico e um dos fundadores da mecânica quântica. Esse princípio tem sua base assentada na falibilidade lógica, no surgimento da contradição e na indeterminabilidade da verdade científica. O pensamento complexo é desprovido de fundamentos de certezas absolutas e permeia os diversos aspectos do real.

Viver no risco e na incerteza é o grande desafio da condição humana. E a escola deveria preparar o sujeito para conviver com essa dualidade ambivalente e, ao mesmo tempo, complementar: limite e possibilidade. Esse exercício de compreensão é necessário para que possamos contribuir no processo de desenvolvimento e mudança na ciência, na pesquisa e em nossa prática cotidiana no âmago das sociedades.

A vida humana, assim como o conhecimento, é uma aventura; uma viagem rumo ao incerto. Por isso, é importante que a reflexão esteja sempre ao lado da auto-reflexão, e a crítica, ao lado da autocrítica, para que os indivíduos se percebam também sujeitos. Todos somos construtores do futuro que é incerto.

É imprescindível que a escola transmita às novas gerações a compreensão da condição humana em sua unidade e diversidade complexa. A compreensão de si e do outro como um diferente é uma garantia de solidariedade que envolve o respeito às liberdades, e isso só ocorre a partir de uma reforma de pensamento.

A reforma do pensamento, em época de incerteza, pressupõe a consciência reflexiva de si e de mundo para o exercício de uma auto-ética que é complexa e entende o humano como um ser relacional que vive em comunidade. Assim, aceitar o outro e compreendê-lo de forma amorosa é condição ontológica da existência humana e implica mudança de atitude e perspectiva diante da vida.

Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!”

                                   Luiz Vaz de Camões

      

Bibliografia

 

MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. Lisboa, Instituto Piaget, 1991.

____. Meus Demônios. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997.

____. Complexidade e Transdisciplinaridade: a reforma da universidade e do ensino fundamental. Natal, EDUFRN, 1999.

____. Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro. São Paulo/Brasília, Cortez/UNESCO, 2000.

____. A Cabeça Bem-Feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000ª.

PENA-VEGA, A. ; ALMEIDA, C. e PETRAGLIA, I. (Orgs.). Edgar Morin: Ética, Cultura e Educação, São Paulo, Cortez, 2001.

PETRAGLIA, Izabel. Edgar Morin: A Educação e a Complexidade do Ser e do Saber, 6ª. ed., Petrópolis, Vozes, 2001.

_____. “Olhar sobre o olhar que olha”: Complexidade, Holística e Educação. Petrópolis, Vozes, 2001.

DE MASI, Domenico. O Ócio Criativo. Rio de Janeiro, Sextante, 2000.

_____. (Organização e Introdução). Bertrand Russell & Paul Lafargue. A Economia do Ócio. Rio de Janeiro, Sextante, 2001.