OS CINCO SABERES DO PENSAMENTO COMPLEXO
(Pontos de encontro entre as obras de Edgar Morin,
Fernando Pessoa e outros escritores)
Humberto Mariotti
A vida é breve, a alma é vasta.
(Fernando Pessoa)
O esforço para a reforma do modelo de pensamento que hoje predomina em nossa cultura tem várias vertentes. Muitos são os seus proponentes e diversificadas as suas propostas.
A obra de Edgar Morin está entre os pontos altos desse empreendimento. Em
especial, destaca-se a sua mais importante concepção epistemológica, o
pensamento complexo. Nele não predomina o raciocínio fragmentador (o modelo
mental binário do “ou/ou”: ou amigo ou inimigo; ou bem ou mal; ou certo ou
errado; ou ocidente ou oriente; etc.). Tampouco prevalece o utopismo da primazia
do todo — o sistemismo reducionista.
Uma visão de mundo abrangente deve nascer da complementaridade, do
entrelaçamento — do abraço, enfim — entre esses dois modelos mentais. Assim
Morin denomina o pensamento complexo: o pensamento do abraço. Eis por que
proponho, neste texto, falar sobre o que chamo de cinco saberes do pensamento
complexo: saber ver, saber esperar, saber conversar, saber amar e saber
abraçar. Todos estão inter-relacionados, abraçados, e por isso dependem uns dos
outros para ser vividos em sua plenitude. Vejamos como.
Saber Ver
Jean-Paul Sartre, entre outros, percebeu que nossa existência é confirmada pelo olhar do outro. Mas não é necessário ser um filósofo para chegar a essa conclusão. Peter Senge1 relata que entre certas tribos do Natal, na África do Sul, o priincipal cumprimento é a expressão Sawu bona, que quer dizer "eu vejo você". As pessoas assim saudasdas respondem dizendo Sikhona, que significa "eu estou aqui". Ou seja: começamos a existir quando o outro nos vê.
E mais: existe, entre tribos africanas que vivem abaixo do Saara, a ética ubuntu, que vem da tradição Umuntu ngumuntu nagabantu, que em zulu
significa “Uma pessoa se torna uma pessoa por causa das outras”. Para esses povos,
quando um indivíduo passa por outro e não o cumprimenta, é como se houvesse se
recusado a vê-lo, o que significa negar-lhe a existência.
Saber ver é antes de mais nada saber ver os nossos semelhantes. De fato, a
localização anatômica dos nossos olhos mostra que eles estão orientados para
ver o mundo — isto é, para ver o outro. Todos sabemos que há certas partes de
nossa anatomia que só podemos enxergar em ângulos muito precários, e outras que
não podemos ver de modo algum.
Convém notar que a unidimensionalização da visão — que nada mais é do que o
resultado da apropriação do olhar pela cultura dominante — é um dos fenômenos
mais alienantes do nosso cotidiano. A iconização da sociedade, isto é, o
fornecimento de um mínimo de palavras escritas e um máximo de imagens
padronizadas, conduz a uma diminuição do contato com a razão — o logos. Disso resulta a restrição ao
acesso das pessoas ao imaginário, o que as leva a ver o mundo de modo concreto
e literal.
Essa é uma das principais causas da redução da capacidade de lidar com a
palavra e, por conseguinte, de conversar. É uma forma de dificultar a formação
de consensos derivados da experiência e perpetuar a unidimensionalização.
Trata-se de reprimir o imaginário e a diversidade em todas as suas dimensões:
na linguagem escrita e falada, na expressão corporal, na produção de imagens e
símbolos, enfim, em todos os meios pelos quais o indivíduo pode se opor à
massificação.
As imagens e os símbolos veiculados pela linguagem tendem a quebrar a
linearidade do nosso pensamento. Nesse sentido, os mitos são indispensáveis à
facilitação das conversações e, em conseqüência, à formação de consensos. A
experiência mostra que ao compartilhar histórias, lendas e narrativas, as
pessoas vêem abrandado o seu ânimo competitivo e litigante.
No entanto, como alerta o historiador e mitólogo Joseph Campbell, os símbolos
têm, ao longo da história, levado povos inteiros a comportamentos violentos e
destrutivos. Para Campbell, muitos desses comportamentos resultam da interpretação
literal do conteúdo de mitos heróicos. As metáforas são tomadas como
reproduções exatas do real, e desse modo reaplicadas à prática.
É claro que essa espécie de compreensão pressupõe mentes como as
nossas, condicionadas por uma cultura cujos mitos básicos configuram uma
interminável crônica de guerras, pilhagens, vinganças e punições. É dessa
maneira que os fundamentalismos reforçam os condicionamentos, que por sua vez
reforçam os fundamentalismos e assim por diante.
A primitivização de nossas mentes pela supressão da palavra (em especial a
palavra escrita) traduz-se na prática pelo estreitamento de nossa percepção de
mundo. Dessa maneira, ela passa a depender de quase que um único sentido — a
visão. A audição vem em segundo lugar, mas com menos destaque. Essa
circunstância nos torna cada vez menos capazes de perceber a importância do
conjunto.
Perdemos a abrangência de avaliação proporcionada pela totalidade dos sentidos,
e dessa forma nos afastamos da perspectiva sistêmica de estar no mundo. Em conseqüência,
as percepções veiculadas pelos sentidos que têm sido reprimidos e anestesiados
são desvalorizadas, o que favorece a unidimensionalização e a manipulação.
É indispensável que evitemos assumir uma visão conspiratória desse fenômeno,
para não cairmos mais uma vez no eterno equívoco (ou conveniência) de atribuir
as causas de nossas dificuldades só a fatores externos, dos quais nos julgamos
vítimas indefesas. Convém que estejamos alertas para essas circunstâncias,
pois, ao que parece, muitos de nós estão convencidos de que a alienação das
massas, com todas as suas conseqüências, resulta da atuação de um establishment onipotente, ao qual é
inútil resistir. É com essa espécie de desculpa que costumamos fugir à
responsabilidade de ter de lidar com o
real.
Convém não esquecer que tudo isso vem acontecendo com a nossa anuência,
consciente ou não. Essa postura de vítimas, aliás, expressa-se em nossa
tendência a dar pouco valor às iniciativas individuais para a transformação social:
se sou uma vítima, e ainda mais estando isolado, como poderei mudar alguma
coisa? Muitos parecem não entender que para superar essa circunstância é
fundamental o desenvolvimento do fabulário, que aglutina as pessoas. Parecem
não compreender também que para isso a palavra, as imagens, os sons e as
sensações tácteis e olfativas precisam caminhar juntos, como meios de percepção
e integração de nossa experiência no mundo.
O que aconteceria se de repente perdêssemos a visão, ficando dependentes dos demais
sentidos? Essa foi a idéia que levou o escritor português José Saramago a
produzir o romance Ensaio Sobre a
Cegueira. A história se passa em uma grande cidade, onde as pessoas começam
a ficar súbita e inexplicavelmente cegas. Pior ainda, o problema é contagioso.
O alastramento do surto marca o início de uma série de terríveis
acontecimentos, centrados num só fato: as desventuras de uma sociedade que,
acostumada à unidimensionalidade, a um modo quase único de perceber o mundo, é
de súbito levada a depender por inteiro dos demais sentidos, que sempre havia
mantido em plano secundário.
Continuemos com o romance de Saramago. Os casos de cegueira vão se
multiplicando. A primeira providência tomada é previsível: os cegos são
confinados, com guardas armados a vigiá-los — a clássica atitude
concentracionária, à qual nossa cultura recorre sempre que tem de lidar com
pessoas que de um modo ou de outro se revelam diferentes. A história prossegue,
e logo se estabelecem entre os cegos confinados ações que oscilam entre a
competição e a cooperação.
Seguem-se cenas em que essas circunstâncias se generalizam, e a disputa pela comida leva a conseqüências degradantes, que se alastram para fora do ambiente do confinamento.
O livro é uma metáfora das desventuras de uma sociedade cujo principal modo de
perceber o mundo foi suspenso. A isso se adiciona o fato de que esse modo de
percepção, por sua própria natureza, impele as pessoas a buscar referenciais
externos, com o resultante apagamento progressivo da vida interior. No romance,
ao se verem privadas desses referenciais (impedidas, por exemplo, de consultar
o Grande Guru que é a televisão), elas se dão conta de seu vazio interno e
partem para a busca de uma solidariedade perdida, o que é feito de modo
canhestro e ineficaz. Não se pode, aliás, esperar outra coisa de indivíduos
mais preparados para a competição do que para a parceria.
O romance de Saramago pode ser lida como um questionamento ao pensamento único,
apropriado pelo poder de uma cultura em que o homem perdeu o sentido da
globalidade e o de si mesmo. Nesse contexto, a proposta do pensamento complexo
corresponde a uma retomada da pluri-sensorialidade. Esta pode ser considerada
um equivalente orgânico da transdisciplinaridade — uma forma de ver e entender
o mundo, traduzida em um saber que questiona a cegueira do modelo mental
dominante.
Esse detalhe pode não
ser claro para muitos de nós, mas não escapou à sensibilidade de um grande
poeta. Falo de Fernando Pessoa, em cujos versos se lê:
E penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e com os pés
E com o nariz e com a boca.2
O que nos conduz de volta ao marco
inicial: saber ver é saber ver o outro, único ponto de partida humano para
começar a enxergar o mundo. Ou, como diz Pessoa,
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós, que
trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender.3
A expressão “trazemos a alma vestida”, pode ser vista como uma alusão ao fato de nossa cultura estar atrelada ao modo de pensar binário, ou pensamento linear, o qual estreita e obscurece nossos horizontes mentais, e assim nos impede de perceber muitas das nuanças da realidade. Trata-se de um padrão que, entre muitas outras coisas, privilegia o conhecimento tecnocientífico e deixa em segundo plano a vertente humanística do conhecer.
Já versos como “isso exige um estudo profundo/uma aprendizagem de desaprender”
nos conduzem ao que Morin viria reconhecer como a necessidade da reforma do
sistema de pensamento acima mencionado, o que gerou sua atitude epistemológica
fundamental: o pensamento complexo. É indispensável — sustenta o pensador
francês — aprender a aprender.
Tudo isso visto, convém lembrar que os poemas aqui citados foram escritos no
começo do século 20 (Pessoa morreu em 1935). Ou seja, bem antes de se começar a
falar de modo constante em complexidade, reforma do pensamento, aprender a
aprender e temas semelhantes.
O próprio Morin vê em Pascal a inspiração inicial de seu pensamento complexo.
Percebe-se, então, como a vasta cultura literária e filosófica de Morin — à
qual ele nunca deixou de recorrer — inspirou muitas de suas descobertas mais
importantes. Assim, sua conhecida admiração pelos poetas e ficcionistas só faz
enaltecer o seu trabalho.
Falemos mais um pouco sobre Fernando Pessoa. Os famosos heterônimos, por
exemplo (Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e outros menores),
correspondem às partes que compõem o todo de sua obra; e esse todo retroage
sobre as partes realimentando-as. Eis aqui um dos princípios do pensamento
complexo: as partes integram o todo mas não perdem suas características
individuais.
Os heterônimos são partes, mas a obra pessoana não perde a unidade por causa da
diversidade deles. Trata-se de uma evidência marcante da realidade do complexo
que, como observa Morin, vem do latim complexus — aquilo que é tecido junto.
Como na metáfora moriniana: os fios compõem o tapete; este só é tapete por
causa dos fios; mas o que o constitui é a relação entre os fios de sua
contextura e o conjunto da tapeçaria.
Em poucas obras literárias o fenômeno da unitas multiplex (unidade na
multiplicidade) surge com tanto vigor como nos trabalhos de Pessoa.
Em meu livro As Paixões do Ego4 — do qual deriva este trabalho —, menciono ainda outra das múltiplas faces da contribuição pessoana. Além do que se viu acima, Pessoa figura entre os primeiros criadores literários a ter a intuição da fenomenologia, sem dúvida uma das vertentes do pensamento complexo.
Sabe-se que a poesia de Alberto Caeiro inclui a investigação de se a linguagem
humana é ou não capaz de representar o real. Caeiro concluiu que ela não tem
essa capacidade, ou a tem de forma limitada. Assim, diante da realidade o poeta
opta por descrevê-la como ela se apresenta; busca mais mostrar do que explicar
a experiência do ser humano em sua interação com o mundo.
A célebre frase “voltar às coisas mesmas”, de Edmund Husserl — introdutor da
fenomenologia e da filosofia moderna na Alemanha —, significa que o esforço
fenomenológico implica suspender os preconceitos, as idéias prévias, as teorias
e, mediante essa disposição, observar os fenômenos tal como eles se apresentam
à nossa experiência imediata.
O ânimo transcendentalista de Husserl acabou por distanciar a fenomenologia da
vivência do cotidiano. Pessoa expressa em termos poéticos o que Husserl — ao
menos nas etapas iniciais do método fenomenológico — diz em linguagem
filosófica. Seu trabalho revela como a poesia, na qualidade de meio de
compreensão do mundo, tem tanto a contribuir quanto a filosofia — não fosse
ele, além de poeta, também um filósofo.
Por meio dos versos de Caeiro, a lírica pessoana entrelaça as consciências
lógica e poética. Ela é, pois, uma forma de exercer a atitude fenomenológica; e
com isso ajuda-nos, e muito, a lidar com a complexidade. Alguns exemplos:
Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse
nele,
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!5
(...)
Mas se Deus é as
flores e as árvores
E os montes e o sol e o luar,
Então acredito nele,
Então acredito nele a toda hora,
E a minha vida é toda uma oração e
uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos
ouvidos.
Mas se Deus é as árvores e as flores,
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e
sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e lua e flores e árvores e
montes,
Se ele me aparece como sendo árvores
e montes
E lua e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.6
(...)
Sim, eis o que os meus sentidos
aprenderam sozinhos:
As coisas não têm significação, têm
existência.
As coisas são o único sentido oculto
das coisas.7
(...)
A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os
dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto
isso me alegra,
E quanto isso me basta.8
(...)
O Universo não é uma idéia minha.
A minha idéia de Universo é que é uma
idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver
quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como
se tivesse peso.9
Saber Esperar
Para nós, não há nada mais difícil do que esperar. A exemplo
do que fez com tudo mais, nossa cultura privilegiou a dimensão quantitativa do
tempo. Deu primazia ao tempo medido em relação ao vivido. Como a temporalidade
medida é, em nossa concepção, igual a dinheiro, e como o dinheiro com muita freqüência se relaciona a
imediatismo, ansiedade e temor, saber esperar reduziu-se a um sinônimo de
perder tempo, isto é, perder dinheiro e sentir medo.
Transformamos o tempo em uma coisa, uma mercadoria, como mostrou Marx em seus
estudos sobre o tema. Na mesma linha, a apropriação do tempo (e a mecanização
da gestualidade) das pessoas foi também consagrado como o ponto central do
taylorismo — a “gerência científica” das linhas de produção industrial, que
Charles Chaplin satirizou em Tempos Modernos.
Qualquer tentativa de fazer uma ontologia do tempo suscita desde logo a questão
de se ele é linear ou circular. É importante registrar que nas três grandes
tradições patriarcais de nossa época — o cristianismo, o judaísmo e o islamismo
— o tempo é linear. Na Bíblia, com exceção do Eclesiastes, é assim que ele é
considerado. Segundo essas tradições, marchamos sobre essa reta com princípio
meio e fim determinados, sempre em direção a um alvo final — a morte — que pode
representar a salvação ou a danação eternas. Não existe possibilidade de
segunda chance.
É essa linearidade que torna possível as pressões, cobranças e advertências que
instilam em nós o pavor em relação a esse marco do qual não se volta. Tal
circunstância contribui, é evidente, para que encaremos a morte como um ponto
final que nos apavora e não como um dado da vida. Tende também a fazer com que
desvalorizemos a passagem, a trajetória, e tudo aquilo que com ela se
relaciona.
Trata-se de uma unidirecionalidade que torna possível as ameaças partidas de
deuses masculinos, severos, punitivos e fiscalizadores. Possibilitou, ainda, a
emergência de filosofias como o determinismo histórico de Hegel, apropriado por
Marx e transformado em uma espécie de via dolorosa, a ser percorrida na direção
da beatitude final do comunismo salvador.
Além de levar à desvalorização do cotidiano, a retilineidade princípio-meio-fim
dificulta muito a prática da tolerância, da serenidade e da compaixão. Por
outro lado, sempre estimulou a “competitividade”. Porém, mesmo com o aceno a
penas terríveis e com a impossibilidade de retorno, não se conseguiu evitar as
infindáveis tentativas de burlar as punições mediante toda sorte de
estratagemas, muitos deles antiéticos.
Tudo isso levou ao desaprendizado da espera. A concepção linear do tempo tornou
possível, como já foi dito, a sua apropriação e transformação em mercadoria —
ponto central da filosofia das linhas de montagem industrial e da idéia de
produto acabado. A reificação, a quantificação e a comercialização do tempo
fizeram com que ele se tornasse artificialmente escasso, e como tal objeto de
usura. É o caso dos prazos bancários — e também da apropriação e desvalorização
da temporalidade e da subjetividade.
Nesse modelo não há lugar para o ser humano individualizado, mas sim para o
homem recortado, o homem-função. O padrão linear-quantitativo fez com que a
técnica determinasse a vida humana e não o contrário. Temos uma enorme
dificuldade de compreender que, ao ver o tempo só como um bem de consumo ou
moeda de troca, perdemos a sabedoria da espera. Isto é: perdemos uma das
dimensões mais importantes da nossa existência. Não sabemos distinguir o tempo
cultural do tempo natural e pagamos muito caro por isso. Ao institucionalizar a
temporalidade linear, deixamos de respeitar a diversidade das temporalidades
individuais.
Essa é a tônica da nossa cultura, na qual os dominadores impõem aos dominados
(mas também a si próprios) o seu modelo mecânico de temporalidade, e o tempo da
cultura patente reprime o da cultura latente. É claro que precisamos dessa
linearidade para as práticas da vida mecânica — mas não precisamos dela como
indutora de paranóias.
Do ponto de vista qualitativo, o tempo não se ganha nem se perde: vive-se. Nas
grandes tradições anteriores à judaico-cristã, a temporalidade é circular,
reflete a dinâmica dos sistemas da natureza, o que nos mostra que vivemos num
mundo de ciclos. Com elas, aprendemos que saber esperar é saber viver.
É preciso reaprender a aguardar o nascer do dia, o cair da noite, a chegada de
uma estação do ano, as fases da lua, o desenvolvimento de uma idéia. Os ciclos
da vida incluem o tempo de espera dos sistemas. Vivemos neles e eles em nós.
Não há como desenvolver uma alteridade bem diversa da que vivemos hoje sem
entender a complementaridade dos tempos linear (o tempo mecânico-produtivista)
e não-linear (o tempo sistêmico). Ela nos levará a uma visão complexa da
nossa temporalidade.
E preciso, por exemplo, não pretender apressar a chegada da felicidade. Essa
proposta não quer dizer que devamos esperá-la passivamente, mas por outro lado
mostra que de nada adianta persegui-la como se ela fosse uma caça. Com efeito,
a experiência mostra (e insistimos em não aprender com ela) que é a perseguição
ansiosa da felicidade que muitas vezes nos faz infelizes.
Aqui, a noção de coisa mais uma vez faz com que ignoremos a de processo: a
felicidade que se busca com tanta sofreguidão é apenas a da acumulação
material. Essa é a idéia de felicidade que herdamos do Iluminismo, e que
continua em vigor até hoje. Ela pressupõe que as sociedades caminharão sempre
rumo à perfeição, que o evoluir da história está predeterminado por leis fixas
e que o indivíduo, na qualidade de instrumento desse determinismo, é conduzido
por ele.
Trata-se, pois, da idéia de felicidade projetada sobre uma linha de tempo,
sujeita à quantificação e que suscita, no outro pólo, a noção de escassez.
Esta, por sua vez, produziu a convicção de que prolongar o processo vital é
igual a prolongar a felicidade. Trata-se de um ponto de vista em princípio
razoável, mas que em certos casos, além de desvalorizar o momento presente,
inspira ações de postergação artificial da vida em situações em que ela já não
é compatível com a dignidade humana.
Fala-se pouquíssimo na felicidade que surge no aqui-e-agora do convívio das
pessoas — a felicidade solidária. É compreensível: nosso cotidiano competitivo
pode ser tudo menos feliz, embora seja nele, e não num reino transcendental,
que temos de viver. Nossa mente tem pouca capacidade de entender e valorizar a
felicidade que emerge da convivência. Um dos motivos para isso é que esta não é
facilmente apropriável e transformável em moeda de troca, como se faz com o
tempo.
Os obstáculos a essa compreensão são muitos e estão muito enraizados nos
cânones de nossa cultura, segundo os quais é preciso competir, batalhar, ganhar
muito dinheiro para poder comprar a felicidade. Na prática, as pessoas não raro
acabam concluindo que é tão difícil ser feliz por esses meios que imaginam que
o seja por todos os demais. E assim, no fim das contas, acabamos nos
considerando incapazes de ser felizes seja de que maneira for.
A felicidade não está no término de uma linha de tempo, na qual o começo e o
meio também estão predeterminados. A própria idéia de conquista subentende-a
difícil e fugidia. Nessa ótica, ela é considerada uma forma de vantagem e
continuamos a persegui-la por toda parte — menos onde se encontra: no espaço de
convivência com o outro humanamente legitimado, e no respeito ao tempo de que
ela precisa para emergir.
Saber esperar não é uma condição que deriva de um conjunto de regras, de um
sistema filosófico ou de uma disciplina pragmática. Tampouco é uma condição
transcendente, à qual devemos nos curvar movidos pela fé. Trata-se de uma
dimensão importante da condição humana, e negá-la é negar a própria essência do
viver.
Não é por acaso que saber esperar é uma dimensão tão feminina. Na mulher, essa
característica não é uma virtude, uma proposta metafísica ou um valor moral.
Pode até evoluir para tudo isso, sem dúvida, mas no princípio, na base, saber
esperar é uma questão biológica. A mulher é um ser lunar, que sabe que precisa
aguardar pelos grandes ciclos de seu universo orgânico: o menstrual, o
gravídico, o puerperal, o do aleitamento. Ela sabe que não há como tentar
acelerá-los, nem competir com eles sem que os resultados sejam desastrosos. E é
essa sabedoria do viver que a capacita para a sabedoria do conviver.
Aprender com a mulher os mistérios da temperança e da serenidade é algo que
nós, os homens, precisaríamos voltar a fazer.10 Digo voltar, porque
já sabemos que era assim nas ancestrais culturas matrísticas. Se existe uma
biologia do amor, existe também uma biologia da espera, e saber exercê-la é o
caminho natural para aprendermos a lidar com a ansiedade e o imediatismo. Não
estou dizendo que a mulher é superior ao homem ou vice-versa, mas convém
lembrar que, em nossa cultura, um dos grandes obstáculos à compreensão e
aceitação da biologia da espera é a tradicional desvalorização do feminino.11
Há muito que lançamos sobre as mulheres a culpa pelas dificuldades e
frustrações que nosso imediatismo nos faz passar. Projetamos nelas os
preconceitos oriundos de nossa insistência em negar a não-linearidade e a
complexidade inerentes ao mundo e ao tempo. Por isso, dizemos que elas são
imprevisíveis, inconstantes, obscuras, difíceis de lidar. Ou seja, dizemos que
a mulher encarna todos os aspectos da vida que nossa mente racionalizadora não
consegue pôr sob controle, esquecidos de que, ao nos expressarmos assim,
reafirmamos que o feminino é a própria vida, da qual tanto nos queixamos, e à
qual, ao mesmo tempo, tanto nos apegamos.
Saber Conversar
O
que para nós é claro, pode ser incompreensível para o outro. Como observam Joseph
O’Connor e Ian McDermott, em princípio tendemos a julgar a nós mesmos pelas
nossas intenções e não pelo resultado de nossos atos.
Esse pressuposto em muitos casos nos leva a ser auto-tolerantes: se algo dá
errado, ou se o resultado de nossas atitudes prejudica alguém, sempre poderemos
dizer que não era essa a nossa intenção. Por outro lado, costumamos julgar o
outro não pelas suas intenções (que nem sempre podemos adivinhar), mas por seu
comportamento. Se algo não dá certo, ou se alguém é prejudicado, torna-se bem
mais difícil sermos tolerantes com ele.
Mas ocorre que o tipo de alteridade ao qual estamos culturalmente determinados
— gerador de mil cautelas, medos e desconfianças — não nos põe à vontade para
conversar de modo aberto sobre as nossas intenções. Ao contrário, muitas vezes
tendemos a escondê-las ao máximo. Se avalio o outro apenas pelo seu
comportamento (e não pelo seu comportamento mais
as suas intenções), é claro que ele me julgará do mesmo modo.
Esse é mais um dos resultados da limitação de nossas percepções e entendimentos
pelo raciocínio de causalidade simples, que reforça a desconfiança e a
constante busca de “provas”, aumenta o
nível de cobranças e dificulta a tolerância. Somos inclinados a reagir a
comportamentos e não a interagir com intenções e condutas.
Modificar o nosso modelo de conversação constitui, talvez, a melhor forma de
lidar com essa dificuldade. Sabemos que nosso conversar é determinado por um
alto nível de institucionalização. Em nossa cultura, não são muito freqüentes
as oportunidades de falar com liberdade e sinceridade. Essa situação poderá
mudar de modo significativo, se e quando conseguirmos transformar nossas
conversas em trocas de intenções, em vez de continuar a fazer delas meios de
ocultá-las. É preciso construir uma ética do dialogar, cujo ponto de partida
pode ser a aprendizagem de como receber feedback
(em especial o negativo) e mudar em função disso.
É claro que essa atitude não significa que devemos fazer tudo o que o outro quer.
Nosso principal empenho será fazê-lo dar-se conta de que estamos procurando
entender que seu comportamento provavelmente reflete as suas intenções, e que
esperamos que ele faça o mesmo a nosso respeito.
Precisamos estar bem conscientes, porém, de que a alteridade que baliza a nossa cultura potencializa as posições reativas e dificulta as criativas, o que não quer dizer que devamos renunciar a estas. A chave para compreender esse sistema é tentar chegar às intenções do outro.
Tudo bem examinado, deduz-se que saber
conversar é algo que só se aprende quando se é livre. Entre as muitas maneiras
de definir o que significa ser livre chama atenção a de Viktor Frankl, que
definiu liberdade como o intervalo entre o estímulo e a resposta, isto é, o
espaço entre as questões que o mundo
nos propõe e as respostas que lhe damos. Frankl sabia o que dizia. As bases de
seu pensamento — que deram origem a uma corrente de psicoterapia existencial, a
logoterapia — começaram na década de 20, mas foram consolidadas em sua
experiência como prisioneiro de campos de concentração nazistas.
O psicoterapeuta Rollo May define liberdade do mesmo modo: como a possibilidade
que uma pessoa tem de estabelecer uma pausa entre o estímulo e a resposta e
depois orientar-se para uma determinada atitude, escolhida entre várias outras.
É esse intervalo, esse pequeno interstício, que convida as pessoas a serem
livres. E é dele que temos tanto medo: sempre que chamados a visitá-lo,
refugiamo-nos no já visto, no conhecido. Essa é a principal forma de manter
conversações que costumam louvar as virtudes do novo e queixar-se da
repetitividade da vida, mas que são, elas próprias, repetitivas em sua
insistência em opor-se a novas maneiras
de ver o mundo.
Quando digo que precisamos reaprender a conversar, estou me referindo a essa
circunstância. Reaprender a conversar significa aprender de novo a utilizar
nossos espaços de criação. Mas, como sabemos, o medo de ser livres faz com que
fujamos deles. Essa fuga se faz com mais freqüência por meio de nosso hábito de
fazer perguntas padronizadas, as quais por sua vez suscitam respostas
estereotipadas. Ou seja, dizemos o que os outros querem ouvir para que eles nos
respondam o que queremos ouvir — e assim nada se aprende e nada se ensina.
Se cada um de nós percebe o mundo
segundo a sua própria estrutura, saber conversar significa antes de mais nada
saber perguntar. Expliquemos. Em nossa cultura, muitas vezes o diálogo se torna
uma competição, na qual se decidirá quem fala melhor, quem argumenta com mais brilhantismo
e assim por diante. Em geral, julgamos que uma questão bem formulada é aquela
que põe o outro em dificuldades. Sentimo-nos vitoriosos quando conseguimos
embaraçar o nosso interlocutor. Propor-lhe perguntas difíceis, acuá-lo,
significa para nós um triunfo. Com muita freqüência, usamos as perguntas não
para conversar, para aprender algo, mas para “vencer” um debate.
O modo como o interlocutor entende o
nosso questionamento depende de sua estrutura, não do que perguntamos. Saber
perguntar é fazer perguntas que produzam alterações no questionado, isto é, que
o levem a aprender algo, a modificar-se e depois partilhar conosco o que
aprendeu. Nesse sentido, saber questionar, antes de ser uma pretensão a receber
algo de quem se pergunta, equivale a dar-lhe uma oportunidade de transformar a
sua estrutura, isto é, de aprender. Trata-se, no fim das contas, de um processo maiêutico.
Ensinar é propor questões mobilizadoras. Estas produzem em quem as formula uma
expectativa respeitosa diante da resposta, e é por isso que saber questionar
conduz a saber ouvir. Não pode haver indagações adequadas sem a conseqüente
preparação para receber o retorno.
Saber questionar equivale a desencadear um processo de co-educação.
Krishnamurti costumava dizer que o verdadeiro problema da educação são os
educadores. Marx preocupava-se em saber quem os educaria. Se partirmos do
princípio de que o verdadeiro papel dos educadores é formular perguntas
adequadas, segue-se que quem os educa são os educandos, ao dar-lhes as respostas.
Nós somos o mundo. Quando perguntamos algo a alguém, é o próprio mundo que se
abre para essa pessoa, não para desafiá-la ou constrangê-la, mas para
proporcionar-lhe uma oportunidade de modificar-se e, a partir daí, modificá-lo.
Do mesmo modo, ao recebermos a resposta é do mundo que ela vem. Nesse sentido,
conversar com o outro significa que o mundo está conversando consigo próprio
por nosso intermédio — é por isso que conversar significa estar-com,
encontrar-se, religar-se, descondicionar-se, libertar-se. Eis a essência da autoprodução.
George Johnson assinala que quando lemos algo, ou quando conversamos com
alguém, essa experiência produz modificações físicas em nosso cérebro (isto é,
mudanças de estrutura), que se manifestam pela formação de novos circuitos
neuronais e mobilizações de memória, que por sua vez levam a dinâmicas
diferenciadas. Logo, a multiplicação dessas conexões e sua organização em forma
de rede constituem o ponto central de qualquer processo importante de
transformação. Muitas vezes, absorvidos com a possibilidade do emprego de
métodos e técnicas mais elaborados, esquecemo-nos de que a fluidez e a naturalidade das conversações compõem o que há
de mais simples e importante para essa finalidade.
Se o que define uma cultura é o conteúdo das redes de conversação que a
percorrem e compõem, saber conversar é saber construir um universo cultural.
Conversar é aprender, mesmo quando por um motivo ou por outro nosso
interlocutor não é capaz de nos dar a resposta que consideramos “certa”. Dizer
ao outro o que ele quer ouvir — e fazê-lo retrucar na mesma medida — não é
conversar, é monologar.
A conversação constitui uma oportunidade para que as emoções de cada
interlocutor se reorganizem. Como diz Maturana, ela promove o entrelaçamento do
emocional com o racional. Daí a importância dos pequenos grupos. Eles
representam a ampliação dos espaços de liberdade individual e, em conseqüência,
das possibilidades de aprender a conversar.
A diversidade de opiniões que caracteriza os grupos assim formados faz com que
esses espaços de criação jamais se fechem nem sejam preenchidos. Eles precisam
ficar sempre abertos, porque constituem uma região de troca e enriquecimento.
Educar-se é adquirir a capacidade de identificar e ampliar ainda mais os espaços
de conversação e, sobretudo, mantê-los sempre permeáveis.
A linguagem não acontece nos interlocutores e sim no “entre”, no espaço
comum criado entre eles e por eles. Ocorre no intervalo de liberdade há pouco
mencionado. Além disso, as modificações estruturais produzidas pela linguagem
não se limitam ao campo verbal nem ao momento em que ocorrem as conversas.
Já sabemos, com Humberto Maturana, que a linguagem promove modificações
estruturais porque coordena (organiza, sintetiza) os nossos comportamentos e,
ao relatá-los, contribui para que eles se modifiquem. As interações (os
encontros) deflagram mudanças nos sistemas vivos: são as coordenações. A
linguagem coordena e relata essas coordenações. Ela é, portanto, a coordenação
das coordenações.
Muitas das dimensões de nossas interações são inconscientes, mas nem por isso
deixam de participar dessas relações. Se é certo que boa parte da nossa conduta
é determinada pelo inconsciente, isso não quer dizer que nos devamos entregar
por completo às prescrições dessa parte oculta de nossa psique.
Podemos lidar com elas de vários modos. O principal consiste em fazer com que
os conteúdos inconscientes venham à tona, para que possamos tentar examiná-los
e, dentro do possível, fazer escolhas. Para a promoção dessa emergência a
conversação é indispensável. Por isso é que afirmo que saber conversar é saber
ser livre.
Saber Amar
Se o inferno são os outros, a felicidade também o é. Se não existe inferno sem os outros, também não há felicidade sem eles. Amar é algo que já se nasce sabendo. Em geral, os pais tentam educar as crianças para aperfeiçoá-las nesse saber.
Procuram criar um ambiente onde elas
tenham oportunidades de desenvolver aquilo para o qual nasceram, isto é,
respeitar os outros e o mundo natural.
Mas sabemos que ao crescer elas se vêem obrigadas a enfrentar uma cultura que é
o oposto de tudo isso. Têm de desaprender a amar, e disso se encarregam a
racionalização, as ideologias e o conformismo, cuja estratégia é transformar o
amor em um produto raro, difícil de obter e por isso mesmo muito valorizado no
“mercado”. Esse fenômeno não afeta com a mesma intensidade os dois sexos, como
veremos logo mais.
Humberto Maturana e Gerda Verden-Zöller
sustentam que somos seres dependentes do amor. Vivemos, porém, em uma cultura
que se caracteriza pela agressão e pelas guerras — uma cultura de desamor. A questão
que esses autores propõem é a seguinte: os seres humanos são animais
geneticamente agressivos e às vezes amorosos, ou são animais amorosos que às
vezes se tornam agressivos?
Há outra maneira de formular a pergunta: os seres humanos são animais geneticamente
patriarcais, que às vezes agem de modo matrístico, ou são animais geneticamente
matrísticos e culturalmente tornados patriarcais? Se recorrermos à teoria do
cérebro triúnico, de Paul Mac Lean, a questão poderá ser enunciada ainda de
outra forma: somos animais guiados pelas determinações do cérebro reptiliano
(agressivo), que às vezes agem segundo as determinantes do cérebro mamífero
(afetivo), ou o contrário?
Pouco importa a forma de indagar. Sabemos que Maturana afirma que nossa
agressividade é (ou ainda é) de origem cultural. Sustenta, além disso, que
somos seres que vivem na linguagem. Se esta desaparecesse, também
desapareceríamos como humanos. Essas noções permitem entender de outra forma o
que foi dito há pouco. Se as crianças já nascem sabendo amar (isto é, se são
biologicamente amorosas e às vezes agressivas), as conversações da cultura em
que vivem é que fazem com que elas desaprendam o amor. Em conseqüência, passam
a comportar-se de forma agressiva, mesmo sendo geneticamente amorosas.
Como se vê, o raciocínio de Maturana é biológico, e vê o amor não como uma
dimensão excepcional ou virtude transcendente, mas como um fenômeno da
natureza. Nesse sentido, a vida amorosa é uma forma de exercermos essa condição. É o que ele denomina de biologia do
amor.
Mas esse reducionismo inicial abre caminho para muitas reampliações. Amar o
outro significa reconhecê-lo e legitimá-lo, sem que ele precise de nenhum modo
justificar a sua humanidade. Todavia, vivemos em uma cultura em que prevalecem
o não-reconhecimento e a exclusão. Nesse caso, o outro não é aceito como humano
a priori: reservamos esse privilégio
para nós próprios e, a partir daí, pretendemos impor-lhe os nossos valores.
Isso significa que passamos a exigir do outro mais e mais provas de sua
humanidade e, por mais que ele as forneça, estaremos sempre prontos a
desqualificá-las.
Cabem aqui mais algumas reflexões. Se estamos há tanto tempo orientados para o
desamor e para a agressividade, será que ainda há possibilidade de mudança? Ou,
de forma ainda mais pessimista, será que esse ponto já não foi ultrapassado e
agora malhamos em ferro frio?
É muito difícil responder, pois qualquer resposta só poderia ser dada nos
termos dos nossos condicionamentos. Até que consigamos reduzir ao menos um
pouco essa limitação, quaisquer tentativas nesse sentido levarão a conclusões
equivocadas. De modo que nesse caso somos levados a pensar em termos
excludentes: ou nos resignamos ao que se vem repetindo há séculos — que o homem
é biologicamente mau e nada se pode fazer quanto a isso —, ou prosseguimos com
nossos esforços de reforma do pensamento.
Há pouco, observei que amar é algo que já se nasce sabendo, mas que a cultura
dominante nos levou a desaprender. Assinalei também que essa desaprendizagem
não afetou na mesma proporção os dois sexos. Com efeito, o antropólogo Ashley
Montagu observa que a mulher cria e conserva a vida, enquanto o homem a
mecaniza e destrói. Para Montagu, o amor da mãe pelos seus filhos é o grande
modelo para todas as demais formas de relacionamento. Já no fim dos anos 60 ele
observava, embora não utilizasse essa expressão, que as mulheres são mais
preparadas do que os homens para pensar em termos sistêmicos.13
As palavras desse autor mostram como, em geral, as mulheres não se deixaram
condicionar tanto quanto os homens pelo pensamento linear. Pode-se dizer que
elas são as grandes produtoras e mantenedoras do modelo mental sistêmico,
representado pela intuição, que com tanto empenho aprendemos a desprezar.
Assim, deduz-se que saber amar é algo que os homens precisam reaprender com as
mulheres. Como diz Montagu, o que precisamos é de um pouco mais do espírito
feminino e um pouco menos da agressividade masculina.
O homem pode aprender com a mulher a pensar em termos sistêmicos, e, a partir
daí, ambos podem chegar a uma visão complexa de mundo. Mas para tanto ele precisa deixar de impor-lhe a
sua linearidade. Isso feito, a complementaridade ocorrerá de modo espontâneo,
porque os processos naturais são cooperativos e competitivos e não — como se
pensou durante muito tempo — só competitivos. A “competitividade” é uma
circunstância cultural, criada pelo medo que aprendemos a ter uns dos outros.
Nós, do sexo masculino, precisamos de ajuda para sair dessa situação, e esse
auxílio está bem mais próximo do que imaginamos.
É evidente que aqui não me refiro ao feminino como sexo. Meu propósito é bem
mais abrangente: falo de um amplo conjunto de qualidades e habilidades próprias
da totalidade do ser humano que, no momento atual e pelas razões já apontadas,
as mulheres encarnam de forma mais ampla e mais clara. De todo modo — e com
Montagu —, reflitamos sobre o que diz Biron, personagem de Shakespeare:
From women’s eyes this doctrine I derive:
They sparkle still the right Promethean fire;
They are the books, the arts, the academes,
That show, contain and nourish all the world:
Else none at all in aught proves excellent.14
[Dos olhos das mulheres tiro esta
doutrina:
Elas ainda brilham como o verdadeiro
fogo prometéico;
Elas são os livros, as artes, as
academias,
Que mostram, contêm e nutrem o mundo
inteiro:
Sem isso, de qualquer forma, nada mais dá provas de
excelência.]
Maturana observa que só o amor expande a inteligência, e parece não haver dúvidas
a esse respeito. Nesse sentido, sustento que viver a biologia do amor é viver
de modo inteligente, isto é, de forma competente, o que significa entre outras
coisas deixar de querer reduzir mistérios a problemas e vice-versa.. A
inteligência é ao mesmo tempo o resultado do amor e a vertente que o faz
brotar. Quem ama estende a mão. Quem estende a mão prepara-se para o abraço — e
não se pode abraçar a quem não se ama.
Saber Abraçar
Para saber abraçar, é preciso antes saber amar. Surge então a
pergunta: o que será que eu preciso ver no outro para que possa sentir vontade
de abraçá-lo, isto é, tornar-me solidário com ele? Em primeiro lugar, preciso
ver a mim mesmo, e é por isso que devo evitar projetar nele o que não desejo em
mim. A maneira como vejo o outro depende mais de mim do que dele, isto é, como
trabalho o meu ego e dos resultados a
que chego.
Nosso ego funciona como o guardião dos condicionamentos de nossa mente. É o
meio pelo qual pomos em prática a razão instrumental. Trata-se, como se sabe,
de uma dimensão instituída, isto é, elaborada pelas circunstâncias da cultura.
As pessoas que se empenham em um trabalho sobre si próprias, seja pela
psicoterapia, seja por outros processos de desenvolvimento pessoal, podem
chegar a uma outra dimensão egóica — o ego trabalhado — que se aproxima de um
modo de viver não apenas mecânico.
Trata-se de uma dimensão participante. Não estou propondo que tenhamos dois
egos, é claro. Ao nos darmos conta desse redimensionamento, porém, percebemos
nossas possibilidades e limitações. Defrontamo-nos a um só tempo com a
liberdade e com o nada.
Martin Heidegger diz que há duas formas fundamentais de existência humana. A
primeira se caracteriza pelo esquecimento do Ser. A outra tem essa consciência,
e faz com que vejamos a morte como um fato da vida e não apenas como o seu
término. No primeiro caso, temos a existência pautada pelo ego-pensamento, que
produz o homem individualista. No segundo, surge o modo de viver do homem que
se fez indivíduo sem se afastar de seus semelhantes.
A marca central da inautenticidade é a perda do sentido de totalidade. Talvez
seja essa a noção que temos maior dificuldade de compreender. Quando um
indivíduo se mantém inteiro, adquire a compreensão de que essa integridade pode
e precisa ser partilhada com o outro, isto é, com o mundo. A essência do ser
humano se define por meio de sua relação com o mundo, e guarda também uma
afinidade indispensável com a totalidade do Ser. Espinosa expressa essa circunstância ao dizer que essa ligação
configura uma unidade que é a própria natureza. Esse é um dos motivos pelos
quais a idéia de razão desse filósofo é, na essência, ética.
Aceitar a morte como um fato da vida equivale a admitir nossa vulnerabilidade e
finitude. O homem individualista, que se pretende imortal, acha que não precisa
de ninguém. O homem-indivíduo pensa o oposto. Nos termos do mito do curador
ferido, sua posição corresponde a admitir a possibilidade de estar lesado e, em
conseqüência, respeitar as feridas dos outros e dispor-se a ajudar a cuidar
delas.
Sem essa consciência não poderemos instaurar uma nova ética da alteridade.
Acompanhando Montaigne, Goethe assim expressa a nossa situação: “Os homens
trazem dentro de si não só a sua individualidade, mas a humanidade inteira, com
todas as suas possibilidades”. Se persistirmos na recusa de assumir na prática
essa condição, continuará a ser para nós muito fácil agredir e eliminar o outro
— e, convenhamos, não pode haver vontade de abraçar aquele a quem vemos como um
condenado.
A idéia da morte valoriza a nossa existência e faz com que valorizemos a vida
do outro. Nas palavras do psicoterapeuta Irvin Yalom, se a morte destrói o
homem, a idéia dela o salva. Aceitamos a morte como um fato da vida — e não
apenas como o fim de tudo — quando nos damos conta de que somos vulneráveis e
frágeis e de que o mundo (que inclui a figura do outro) também o é.
Eis o que chamo de interfragilidade. Para
chegar a ela, é preciso percorrer três planos: a) primeiro, a fase de
prevalência do ego, com sua mão fechada, pronta para o soco, ou então crispada
sobre e empunhadura da espada; b) a seguir surge a etapa da mão aberta e
estendida, que resulta do trabalho sobre a dimensão egóica; c) por fim vem a
mão estendida, que se continua por um braço, que por sua vez se alia a outro e
ambos se dispõem a abraçar.
Os braços pertencem a um corpo. No estado atual de nossa cultura, este é
comandado pelas determinações do ego não trabalhado, que precisa dele para
utilizá-lo como arma ou ferramenta, dado que é assim que exerce a competição e
a agressividade. O ego “possui” o corpo, e essa relação dividida transforma a
vida das pessoas em uma sucessão de apegos, disputas e conflitos.
Já a experiência do ego trabalhado muda esse horizonte, porque torna-se claro
que não possuímos o nosso corpo: nós o somos.
Entendida dessa forma, a corporeidade passa a ser vivida como uma
intercorporeidade — e assim nos damos conta de que o corpo é o lugar onde se
fundem o morador e a morada, a teoria e a prática, o abstrato e o concreto, o
ser e o nada.
Da intercorporeidade emerge a espiritualidade. Esta, como escrevi antes,
corresponde a uma atitude de respeito pelo mundo natural e participação em seus
processos. Tudo isso começa, é claro, pela relação com o outro. Não estou
dizendo que não se deva buscar por outros meios a transcendência, mesmo porque
esta é uma dimensão necessária e fundamental para o ser humano. O ponto no qual insisto é que
nenhuma iniciativa de religação pode ser tomada sem que primeiro se chegue ao
ponto mais importante de todo o processo, que é a legitimação da figura do
outro.
Se a busca do outro é a procura da integração no mundo, dizer que o amor é uma
dimensão biológica só na aparência é uma redução. Uma reflexão mais aprofundada
revela que apenas por meio do outro é possível ampliar e transcender as
limitações de nossa fragmentação e solidão existencial.
A busca da alteridade é inerente à condição humana. Já sabemos que a
localização anatômica de nossos olhos revela que eles estão orientados para
enxergar o outro. Também não podemos abraçar a nós mesmos: só o outro pode
abraçar-nos. Eis por que precisamos dele: para que nos abrace e assim nos ajude
a saber que existimos.
Somos seres desejantes. Mas, como intuiu o psicanalista W. Fairbairn, a finalidade
do desejo não é o prazer e sim a relação com o outro. O prazer é um meio para
esse fim. Não buscamos a convivência por causa do prazer — é ele que nos leva a
procurá-la. O si-mesmo não é apenas único, é também coletivo. Nesse sentido, o
indivíduo não tem primazia sobre a cultura em que vive. Quanto mais nos
identificarmos apenas com o ego, mais dificuldade teremos de entender que o
si-mesmo é a um só tempo individual e comunitário.
Já em 1953, o escritor argentino
Ernesto Sábato15, certamente influenciado por Martin Buber, via no
processo histórico um impulso em direção ao feminino, ao qual chamou de
gamocentrismo. Esse abraço dos sexos pode ser visto como uma metáfora para
exprimir a complementaridade dos pensamentos linear e sistêmico, que compõe o
pensamento complexo, o qual por sua vez permite o entendimento e a prática da
visão de mundo neomatrística. Para Sábato as sociedades humanas se movem, desde
a Idade Média, segundo a seguinte dinâmica:
- Comunidade medieval (predomínio do Nós);
- individualismo mercantil do Renascimento (predomínio do
Eu);
- ciência
e capitalismo abstratos da modernidade (predomínio do Isso);
- rebelião romântica, existencial, concreta e feminina (predomínio do Eu);
- síntese fenomenológica, rumo a uma comunidade feminino-masculina
(predomínio do Nós).
Neste ponto, é necessário fazer uma digressão. Sabemos que o início da
experiência mental é inconsciente e se estrutura com o feto no útero materno,
imerso em seu pequeno mar de líquido amniótico. Nesse ambiente ele está em paz,
satisfeito e em “união oceânica” com a mãe, como escreveu Freud. Ao determinar
a expulsão brusca da criança dessa “oceanidade”, o nascimento representaria um
trauma terrível. É dessa separação que se originaram mitos conhecidos, como o
da queda e o que fala de uma idade de ouro há muito perdida.
Nessa ordem de idéias, a partir do nascimento o ser humano se vê diante de dois
caminhos: ou supera o trauma primal e torna-se um indivíduo no mundo, ou o nega
e sua vida passa a ser uma longa jornada de volta à unidade perdida. No segundo
caso, tem-se o que ocorre com certos místicos, para os quais a busca de uma
fusão com o Universo significa a negação da existência individual — julgada
insignificante — e uma idealização da religação com o todo.
Essa posição tem sido interpretada por muitos como alienante. Em termos
psicológicos, corresponde a uma renúncia radical ao ego, que por sua vez tem
sido vista como uma alternativa a ter que enfrentar o terror de sentir-se
abandonado num mundo estranho e hostil. Para outros, ela também representaria
uma necessidade de onipotência, cujo resultado mais imediato seria um certo
desprezo por tudo o que é material.
O desejo narcísico de diluição na totalidade pode também ser interpretado como
a raiz de nossa tendência de achar que pouco ou nada podemos fazer por nós
próprios, o que nos levaria a buscar apoio em âmbitos abstratos e idealizados.
Como resultado, nossos semelhantes passariam a ser encarados como fracos e
desprezíveis ou, na melhor das hipóteses, como companheiros de infortúnio.
Tenderíamos a transferir o nosso centro de auto-regulação para um domínio
externo, o que acabaria nos alienando cada vez mais da realidade.
É muito importante não confundir a necessidade de ser visto (reconhecido) e
abraçado (acolhido) pelo outro com o desejo de retornar a essa “oceanidade”. Abraçar e ser abraçado
derivam da primeira escolha atrás mencionada, isto é, da opção de tornar-se um
indivíduo neste mundo. Sustento que ver e ser visto, tocar e ser tocado,
abraçar e ser abraçado (pelo outro e pelo mundo) são metáforas de integração,
não de diluição ou apagamento.
A religação de que fala o pensamento complexo é uma reaproximação de saberes, a
ser posta em prática na concretude dos sistemas da natureza. Não se trata de
uma vontade de retorno, mas sim de uma efetiva participação na dinâmica dos
ciclos do mundo natural. É uma interdependência espontânea, que produz
autoprodução e autonomia, e não uma co-dependência induzida pelo medo, que
resulta em aprisionamento.
Foi dito e repetido
que a negação radical do ego, ou sua transformação em vilão, traz consigo o
perigo de alienação e, em conseqüência, a negação do outro. A suposição, por
exemplo, de que a ancestral cultura matrística seria um reino encantado, um
grande útero materno ao qual todos devemos retornar, é um equívoco que, em
última análise, traduz o desejo de submissão a um matriarcado ideal, que nada
tem a ver com o modo matrístico de convivência.
Por isso, é necessário que não confundamos as atuais propostas de sociedades de
parceria com fantasias de regressão a uma idade de ouro perdida. Essas
iniciativas incorporam várias das características da cultura matrística, mas a
consciência que as orienta está baseada em uma visão de futuro realista, e nada
receosa ou submissa.
Do mesmo modo, o pensamento complexo está muito longe dessa idéia de fusão
“oceânica”. Sua proposta inclui a procura do autoconhecimento, que resulta da
compreensão de que o ego é frágil e por isso precisa ser trabalhado e
reestruturado, para que possa ser capaz de cumprir o seu papel. Um ego frágil,
alienado ou negado em nada ajudará na reforma do sistema de pensamento.
O eu contém o múltiplo (a sociedade, a cultura), que por sua vez o contém. Eis
a unitas multiplex — a unidade na
multiplicidade, a tradução do abraço comunitário que envolve a cada um de nós.
Tudo isso se expressa de um modo dinâmico: o eu se transforma com a cultura,
que por sua vez o modifica, numa relação de congruência. O abraço não é um
substantivo, e sim um verbo — um verbo no gerúndio: melhor seria que
estivéssemos sempre abraçando e nos deixando abraçar.
A insistência em negar essa necessidade gera a interminável seqüência das
nossas aflições. Fingimos não saber que quanto mais “competitividade” mais
esperteza e menos inteligência. A esperteza fragmenta, mutila, não respeita a
unidade das coisas naturais. A inteligência aproxima, abraça. Não pode ser
medida, porque sua única dimensão é a totalidade.
Não é que a inteligência seja melhor do que a esperteza, nem vice versa. Vejo
as duas do ponto de vista operacional — e afirmo que elas não precisam
complementar-se, porque a primeira já inclui a segunda, isto é, o homem
inteligente é aquele que sabe que, no fluxo das coisas, é preciso ser
inteligente sem deixar de ser esperto. Sabe que é necessário temperar a
habilidade de resolver problemas mecânico-fisiológicos com os limites éticos
que a inteligência aponta para as conseqüências das ações que os geraram.
A “competitividade” é uma dimensão da esperteza. A competência está no âmbito
da inteligência. Dizer que precisamos trabalhar por mais inteligência e menos
esperteza equivale a propor que é necessário buscar mais individualidade e
menos individualismo. A individualidade é o ponto de partida natural para a
interpessoalidade. O individualismo é o marco inicial da competição predatória.
O homem que se individualiza é aquele que se diferencia da massa, mas não
imagina que pode se isolar de seus semelhantes. É o que se torna indivíduo sem se deixar alienar.
Não há, pois, individualidade sem interpessoalidade. Ser indivíduo é buscar a
inteligência (que nasce da interpessoalidade) e saber lidar com a esperteza
(que se origina no individualismo). Não nos esqueçamos de que o homem que se
torna um indivíduo é uma síntese viva e criadora da condição humana, enquanto
que aquele que mergulha no individualismo imagina-se sempre primeiro e único o
que, como já foi dito, equivale a correr o risco de ser também o último.
Esperteza (“competitividade”) é querer vencer eliminando os vencidos.
Inteligência (competência) é poder vencê-los e estender-lhes a mão, para que
eles possam amanhã ser também vencedores. A mão fechada é o começo da
separação. A mão estendida é o início do abraço. É o ponto de partida para o
pensamento complexo — marco inaugural do longo processo de busca da
solidariedade.
Notas
1. SENGE, Peter, et al. The Fifth Discipline Fieldbook.
Nova York: Doubleday Currency, 1994, p.p. 3-4.
2. PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p. 212.
3. Id., ibid., p. 217.
4. MARIOTTI, Humberto. As Paixões do Ego:
Complexidade, Política e Solidariedade. São Paulo: Palas Athena, 2000, pp.
245-246.
5.PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1974, p.207.
6.Id., ibid., p. 207.
7.Id. ibid., p. 222.
8.Id., ibid., p. 234.
9.Id., ibid.,
p. 238.
10. ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1992, pág. 9, nota 1.
11. MONTAGU, Ashley A
Superioridade Natural da Mulher. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1970, p. 3.
12. Ver TODOROV, Tzvetan. A
Vida em Comum: Ensaio de Antropologia Geral. Campinas (S. Paulo): Papirus,
1996, pp. 24-25.
13. MONTAGU, op.
cit., p. 138.
14. SHAKESPEARE, William. The Complete Works of William Shakespeare.
(William G. Clark, William A. Wright, eds.) Nova York: Grosset & Dunlap,
1911, Love’s Labour’s Lost, p. 182.
15. SÁBATO, Ernesto. Heterodoxia.
Campinas (S. Paulo): Papirus, 1993, p.91.
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