MATURANA, Humberto R. e VERDEN-ZÖLLER,
Gerda. Amar e brincar: fundamentos esquecidos do humano. São Paulo:
Palas Athena, 2004, 266p.
Sylvia Paula de Almeida Torres Vilhena*
Uma resposta prática e
reflexiva para a implementação da democracia pela educação.
A feliz
associação entre o biólogo chileno Humberto Maturana e a psicóloga alemã Gerda
Verden-Zöller, no livro Amar e Brincar, dá continuidade à Teoria de
Santiago (Maturana e Francisco Varela) e amplia sua abrangência, penetrando nos
campos da antropologia da educação, da sociologia e da política.
A parceria dos
autores, mais que oferecer uma possibilidade de reflexão sobre um
encaminhamento histórico que redundou na emergência, no limiar do séc. XXI, do
existir num mundo globalizado que, discursivamente, apregoa a democracia e,
concomitantemente, expande a sujeição, a miséria, a desigualdade de saberes e
poderes, traz também a denúncia da morte da infância pela cultura do contínuo
preparar-se para o futuro, sem o viver aqui e agora, acrescida dos malefícios
advindos pelo distanciamento corporal e emocional da criança com o adulto.
Tanto para
Maturana, como para Verden-Zöller, essa situação é incompatível com a
democracia. E aí está a grande colaboração de ambos.
Maturana, em
seus ensaios, articula idéias antropológicas que buscam explicar a atual
condição humana, notadamente na cultura ocidental, pelo processo de aculturação
e mudança cultural. Em uma viagem no tempo, retoma a história evolutiva do
grupo de primatas bípedes que, a partir da emoção, na linguagem, faz surgir a
linhagem humana.
Criando e
conotando termos como matrístico, linguajear, emocionar e conversar, Maturana
sustenta que todo o viver humano ocorre em redes de conversações. Enfatizando o
linguajear sustentado no emocionar, desvela como pode ser mudado o curso da
cadeia subseqüente. A história da humanidade seguiu e segue os passos do
emocionar, dos desejos e não de recursos disponíveis, das oportunidades,
idéias, valores, símbolos. Todos esses têm significação a partir de sua
aceitação, de como são conotados emocionalmente. É o emocionar que os torna
orientadores de nosso viver.
O que se deve
tentar desvendar é o caminho percorrido pelo emocionar na trajetória histórica
da humanidade, as mudanças das conversações que, por sua vez, modificam o
emocionar e, ainda, as circunstâncias que estabilizam, ou dão origem, a novos
emocionares.
O viver da comunidade
depende dessas redes de conversações. As alterações ocorrem por conta das
mudanças no emocionar e se conservam a partir do desenvolvimento das crianças
nessa nova rede.
O autor
percorre os caminhos do viver numa cultura matrística, cuja relação é com a
terra, suas sazonalidades, seu renovar constante, o olhar voltado para o chão,
para o verde, para o lobo que espreita mas também tem direito de comer,
Maturana introduz o viver do pastor. Viver que, para o apascentamento, mantém o
humano isolado, tentando o diálogo com a imensidão dos céus, sofrendo o medo
das intempéries e descobrindo que estabelecer redil e acabar com lobos
tornam-no mais forte. Expõe, assim, sua compreensão do surgimento do
patriarcado europeu, ao qual nos filiamos como cultura, e que se mantém,
geração após geração, independente das conseqüências que traz. É o início do
emocionar pela violência, por adotar comportamento destrutivo em grande
quantidade. É um emocionar que exige, desde pequeno, a valorização de quem,
sozinho, enfrenta as adversidades e despreza os de menor força (a mulher), do
entendimento da mulher como posse, é o domínio sobre a sexualidade feminina..
Nesse trajeto,
chega aos dias atuais, à questão do exercício da democracia em diferentes
culturas, que trazem em si contrários, os quais, devido ao lastro do emocionar patriarcal, na prática, se
excluem.
As explanações
de Gerda Verden-Zöller sobre sua pesquisa, cujo objeto é o desenvolvimento da
consciência individual e social da criança, são apresentadas de maneira tão
prática que, sem omitir os fundamentos teóricos, possibilitam a pais e
educadores uma resposta exeqüível à clássica pergunta: o que fazer? As
explicações sobre a gradação de conversas e exercícios desenvolvidos junto às
mães, nas oficinas materno-infantis, oferecem um rumo a ser experimentado, já
que viabiliza a tomada de consciência dos pais sobre a importância da aceitação
“mútua, em total confiança”, na relação adulto-criança. As boas ilustrações
favorecem o entendimento das etapas percorridas pelas mães e crianças nesse
caminhar na e para a democracia consciente. A solidariedade, a liberdade na
igualdade das diferenças, é exercida no amor. Amor que, embalando o indivíduo
desde os primeiros passos, passa a ser parâmetro do viver.
Os ensaios
apresentados por Maturana, assumidamente, são fruto das conversas mantidas com
Gerda Verden-Zöller sobre sua pesquisa: a relação materno-infantil, o papel da
emoção e da corporeidade na formação do indivíduo, de sua sociabilidade. Por
sua vez, a pesquisa tem, declaradamente, muito das obras de Maturana sobre
biologia do conhecimento e biologia do amor. Assim, Amar e brincar é o
retrato vivo da interação entre dois humanos que assimilaram, segundo as
estruturas de cada um, o que de melhor o outro tinha para oferecer. Tratando de
diferentes áreas do conhecimento humano, complementam-se e, solidariamente,
compartilham conosco seus saberes. Sabem o que fazem e fazem o que sabem.
À Editora Palas Athena cumpre reconhecer a cuidadosa tradução, o projeto gráfico e a escolha da obra, uma vez que também faz o que sabe e sabe o que faz: trabalhar pela paz com qualidade de vida.
* Mestranda em Educação (UNINOVE). Pesquisadora do Núcleo Interinstitucional de Investigação da Complexidade e da Culturalidade – NIIC, no Grupo de Estudos em Educação e Complexidade – GRUPEC. Integrante do Grupo de Estudos Contemporâneos da Associação Palas Athena.